SINOPSE
Nostalgia é o fim da estrada mal percorrida de um poeta russo, Andrei Gorchakov. É um filme de uma sensibilidade poética, delicada e hermética, do cenário ao próprio protagonista. Este é uma entropia nostálgica que implode dentro de si lembranças escurecidas de sua terra natal, coloridas pelo preto e branco da cena. Porém, apesar do que sugere saudosismo, ele parece tentar desfazer-se de alguma coisa de seu passado.Em determinado momento do filme, percebido a insalubridade física e psicológica do protagonista, já tão perdido e frustrado por não ter encontrado um caminho, ele confunde-se na loucura de um outro personagem, Domenico, um velho lunático e inconformado com a sociedade. Daí, é poucos passos ao completo esmorecimento da razão.O DIRETORA arte de Tarkovski é complexa, hermética, considerada elitista por seu alto grau de subjetividade. No entanto, o próprio diretor explica-se em termos emocionais o que é a arte. Para ele, a obra de arte não arrebata o espectador porque fora feito exclusivamente para ele, mas porque a idéia que procede a obra, que infla-a e constitui seu todo, provém do próprio artista. Este, então, não se pode deixar corromper pela massa em geral, que espera a mesma história com o mesmo final, ou seja, aquela película-mercadoria que decorre das leis estabelecidas pela indústria. Tarkovski acredita que precisamos raciocinar em suas obras e, ou perceber, não por meio de argumentos concretos, jornalísticos, mas pelo próprio impacto emocional que não se explica, que simplesmente arremata o espectador e o persuade à sensação. Essa é uma das peculiaridades da expressão artística, o poder de conciliar o real e o imaginário de modo que, não por meios científicos seja explicada, mas que simplesmente permite ao espectador apreender a realidade de uma maneira emocional, não apenas racional.Nas obras de Tarkovski, não há uma resposta para tudo, nem para as próprias questões que ele propõe. Talvez, seja por isso que nos confunde tanto sua arte. No entanto, Tarkovski pinta a realidade de uma maneira complexa em que ela mesma se embaraça. Subjetivamente, ele patenteia o imaginário e o expõe da mesma maneira hermética que faz o nosso cotidiano - tanto entendido como um enigma indecifrável. Porém, somos impelidos às suas percepções, entendemos sua arte como sensações, não como meras palavras explicativas, apesar das hipóteses que sugeri nesse texto. Tarkovski decompõe o ser humano numa introspecção seletiva de símbolos. Nada lhe escapa, porém só o essencial é exposto. É como abrir um relógio para ver como funciona - como o próprio diretor disse.Andrei Gorchakov, como alter-ego do diretor, é o silício quase que impermeável, denso, duro, difícil de se penetrar e entender, apesar dos seus gestos e atos no decorrer do filme. No entanto, ele parece emanar suas sensações que se entranham por onde passa. É uma melancolia intensa, uma frustração entediante, angustias que o reprimem em seu passado e no seu introverso.A beleza do cenário da história é quase que ofuscada pelas horas do dia em que foi filmado. Enevoado, escuro, como a alva da manhã, as ruínas somem-se na névoa e na própria melancolia do poeta. Este percorre, numa prolixidade extrema, os lugares, no entanto, à toa à eles. Introverso, suas angustias resultam no tédio profundo em que se encolhe diante dos lugares que passa. É uma pedra resvalando nos declives clichês da vida, permeado de insatisfações, calcado num saudosismo idealizado. Gorchakov caminha no escuro à procura de alguma coisa que não sabe o que é; mas, tudo o enfastia. Nada parece comovê-lo; suas crenças estão debilitadas; sua vontade é indolente; as dúvidas e suas respostas permeiam os interstícios da própria indolência à disposição do ânimo. E é nesse dipolo introverso que se dissocia o indivíduo da sociedade, a qual esta é dissolvida em atestados identitários que aquele discorre e cognomina ao critério da sua percepção. Então, Gorchakov, como indivíduo, revolve-se, insciente, no espírito, à procura da existência em tentativas frustradas pelo externo e à passos cegos no escuro interior. Pois essa oscilação entre os meios o confunde de maneira que não consegue distinguir um nem outro. É quando sua razão esmorece, devido a esses fatores e, talvez, à insalubridade física que carrega, e Gorchakov, então, adota a perspectiva racional de Domenico.O FILME"Estou cansado de ver suas belezas. Enjoam-me. Não desejo mais nada que seja só para mim."
O filme é introduzido por uma possível lembrança do poeta, numa cena em preto e branco, onde os figurantes parecem estar dispostos aleatoriamente no cenário bucólico. Após isso, o filme começa. O cenário é escuro e enevoado, onde a paisagem parece sumir-se diante dos olhos. Vê-se nessa cena a expressão indisposição artística do próprio poeta, pois este se nega a assistir às belezas que sua intérprete oferece. Ele é compelido a uma força centrífuga que dispersa, que repele o social. No entanto, o que vem a seguir é o que ganha maior destaque."Sou um homem simples, mas, para mim, a mulher serve para ter filhos, criá-los, com paciência e sacrifício."
A intérprete, Eugênia, é uma metáfora da mulher livre; ao percorrer por entre os pilares do templo iluminado por velas, outras mulheres, ajoelhadas, parecem ceder à religião; são as figuras antepassadas ao feminino de hoje, submissas ao ascetismo religioso, que constrasta justamente com aquela mulher em pé, que caminha despreocupada: a figura moderna do feminino. Apesar da cena ser povoada por devotos numa iconolatria acentuada, o ponto que principalmente se destaca não é a religiosidade, nem a superstição; é, porém, a própria questão da mulher. Ao recusar ajoelhar-se diante da imagem da santa, como todas as outras mulheres, Eugênia é tomada por um sacristão como uma descrente. Ela, ao observar o ritual ao redor, percebe que apenas mulheres parecem submeter-se ao rigor da religiosidade; pergunta, então, o que o padre acha daquilo. Ao que se responde, com simples humildade, que, para ele, "a mulher serve para ter filhos, criá-los com paciência e sacrifício", revelando, assim, a figura do macho e sua visão estereotipada à cerca da mulher. A cena é finalizada justamente por essa rigorosa devoção religiosa das mulheres, na qual uma crente reza com fervor, provando assim a submissão feminina."Todos parecem querer a liberdade; mas, se lhes derem, digo que não sabem o que fazer com ela... Não a conhecem."
Outra passagem importante é quando Eugência, num acesso de raiva pela indiferênça de Gorchakov aos seus sentimentos, faz-se uma intercalação numa inspeção ao poder feminino de atração, de aptidão romanesca, cujo poeta é a exceção à regra, ou seja, ele é diferente dos outros homens que a desejam, que sabem o que querem dela. Ela acusa o ar que se respira na Itália, rememora outros casos que tivera, mas que, no entanto, não deu certo. O poeta, como disse, é diferente dos outros, não quer o corpo da mulher, não é atraído pelas mesmas volúpias daquela mulher; ele preocupa-se com coisas obstantes, de interesse intelectual. Sua sensualidade é, portanto, rejeitada ao ato não-heróico do poeta, seja pela indiferença, ou pela própria fidelidade à esposa.Aqui, aparece a mulher livre ainda imatura, à procura da estabilidade emocional, do homem ideal; Eugênia mostra-se sufocada pelas ilusões amorosas e ao mesmo tempo pelo desejo platônico que vira e mexe interfere em seu estado. Ao que acusa e se desculpa, move-se pelo cenário, como se conscientizasse da humilhação que se submetera, procurando saída sem assumir seu equívoco, uma vez que o poeta nada tinha de errado pondo-se na posição em que se deixou ficar. A mulher livre, ainda como ser inconstante, é, então, nivelada ao patamar idiossincrático do jeito feminino de ser, às expectativas ainda românticas. Ao passo que sua liberdade não fora desmistificada, assim como a de qualquer homem, como ela própria ressalta na indagação de que ainda que achássemos a liberdade, o que fazer com ela? Não saberíamos.Seu vestido realça-lhe a beleza feminina, num sensualismo ingênuo do qual perde o controle ao lado de Gorchakov. Ela ainda tem medo, tanto do irreal, dos pesadelos, quanto da própria vida, do que ela pode-lhe propiciar, dos destinos e suas inflexões, numa completa inconstância."Jogue isso fora."
O filme, como já disse, é povoado por lembranças do poeta. Há nele uma subjetividade empática, na qual Tarkovski deposita algumas de suas próprias sensações e experiências. Um fato interessante pode ser até visto no documentário Tempo de Viagem, feito com Tonino Guerra, no qual este diz não acreditar na tradução de poesias, entre outras coisas. Em uma cena de Nostalgia, o poeta reproduz essa opinião ao descobrir um livro de poesias traduzidas que sua intérprete ler. É interessante como, num plano poético e metafórico, as minuciosidades decorrem num princípio literal, em contraste ao filme subjetivo e metafórico.Entretanto, incessantemente, a sensação de melancolia e frustração nos assola, como numa exalação de ares pelo protagonista. Não se sabe se o poeta contamina o cenário com seus sentimentos, ou se este simplesmente realça a dor daquele. Em cenas incisas, porém prolíxas, percebemos a depressão introvertida emanada pelo poeta, que move-se pelo cenário naturalmente. Uma, em particular, me chamou muito a atenção: Gorchakov entra no quarto do hotel em que está hospedado, desliga as lâmpadas, caminha até a janela, abre-a e ver a chuva cair; senta-se na cama e continua a observar; lentamente, ele parece adormecer; ao som das gotas de água caindo no chão e no teto, ele, finalmente, deita-se, com os pés para fora da cama; um cachorro, repentinamente, sai do banheiro, aproxima-se e se deita no chão. Esse cachorro aparece diversas vezes na memória do poeta e, assemelha-se, se não é o mesmo, ao cachorro do lunático Domenico. Enfim, a cena é escura e lenta (tanto que só parece terminar quando o poeta finalmente dorme e sonha). É uma visão profundamente circunspectiva: não adentramos à mente do poeta, mas somos compelidos a sentir ou, ao menos, a perceber aquela mesma sensação de melancolia e frustração.É importante ressaltar que a falta de expectativas é bastante reatora. Nada, nenhum objeto ou paisagem, no filme, é preconizado pelo poeta. A imagem da santa, no começo, é rejeitada por ele, que nem se interessa a vê-la. Diz estar "cansado de suas belezas", referindo-se às figuras monumentais das quais mostra a intérprete. Ele incorpora uma indisposição lúgubre, introvertido, absorto em si mesmo. Até que conhece o louco Domenico, por quem se interessa e procura conversar. Este é um lunático que se trancou com a família durante 7 anos dentro de sua casa; previa o fim dos tempos e resguardava-se no escuro das suas salas, procurando salvar-se. É um fato controverso, incompreendido, que deturpa-lhe a identidade diante os outros. Gorchakov tenta compreendê-lo, numa tentativa de encontrar alguma verdade nele, algum caminho para si. Acredita que os loucos estão mais perto da verdade. Aqui, sua razão começa a esmorecer-se, a confundir-se nas crenças do outro. Numa conversa entre os dois, sem que nada o poeta entendesse, Domenico revela a necessidade de grandes idéias para o mundo, fato que se consumaria num dos momentos finais. É o caminho oferecido pelo louco ao poeta, que aceita naturalmente."... e quando a longa noite cai, duas asas surgem atrás de mim. Na festa, a vela me consome. De madrugada, recolham minha cera derretida e nela leiam quem chora, e quem anda soberbo, como dando a última porção de alegria. Morrer levitando e, por sorte, acender-se postumamente, como uma palavra."
Num dado momento do filme, Gorchakov, num sonho, vê no reflexo do espelho o velho Domenico como sua própria imagem. Está aí a consumação do seu esmorecimento racional; o encontro de si mesmo na mente do outro, nas suas crenças e idéias. É uma cena interessante, intumescida de indagações sobre o que aconteceu ao velho, por que aconteceu, como se realmente fosse ele. Essa cena é prescedida por outra igualmente interessante. Ao percorrer umas ruínas, Gorchakov encontra-se com uma garotinha, a que pergunta se esta está contente com a vida. O que antescede a questão são os contrapontos subjetivos, caracterizados numa estória que conta o poeta à garotinha. Há reflexões sobre as surpresas da vida. No entanto, não compreendendo aquilo, ela responde positivamente a indagação.Gorchakov sorri, acende um cigarro - um ato que a todo momento do filme se repete, como se cada fumo fosse, para ele, o último e, simplesmente, não importava. De fundo, alguém profere versos de alguma poesia, que desconfio ser de Arseni Tarkovski, pai do diretor. A poesia é como uma revelação do sofrimento, uma tentativa de exprimir suas angustias a si mesmo. Exatamente como uma poesia, inferimos a expressividade dessas angustias nostálgicas, não como linguagem racional ou jornalística, mas, sim, como um impacto emocional que nos revolve. Novamente, volto a destacar o alto teor subjetivista desse filme poético.Após encontrar-se no reflexo do espelho com o velho Domenico, o poeta percorre, ao esmo, uma antiga construção em ruínas do que parece um castelo. Ouvimos uma conversa, entre Eugênia e Domenico, metaforizados nessa cena como supostamente uma santa e Deus, respectivamente. Há uma questão teológica, em que, ao que a santa pede a Deus por atenção ou zelo à Gorchakov, o Todo Poderoso responde que sempre esteve ao seu lado, mas que o poeta apenas não se recordava de sua presença; Ele não se pode permitir à proeza de aparecer a ele ou falar-lhe diretamente, mas sempre fará sentir Sua presença. Gorchakov, porém, não a percebe."Todos os olhos do mundo vêem o precipício em que estamos caindo!"
Nos momentos finais, vemos uma verdadeira prospecção sobre a tão afamada loucura. O velho lunático, Domenico, discorre, numa poeticidade hermética, sua filosofia epistemológica e existencialista. Seu discurso decorre numa abrangência universal, com elementos que remetem à sociedade em geral e sua situação niilista que, inexoravelmente como parte do sistema, envolve seus componentes. Domenico mostra-se inconformado com essa sociedade e propõe a sobreposição do sonho e sua fomentação. Ele revela, invariavelmente, sua crença na esperança cega, no desejo de algo que poderá, talvez, nunca se realizar, numa ilusão em que todos deveriam se apegar. Ele nos fala do valor de acreditar nos sonhos. É uma visão concreta, porém imaginária. Ele decompõe a filosofia do antirracional. É poético, incompatível ao sistema vigente tão racional que rege nossa sociedade.
Domenico, porém, discursa para um público apático. Percebemos isso na disposição dos seus figurantes, de modo aleatório; eles encontram-se estagnados, imóveis, assistindo às verdades que saem da boca do velho lunático. Aquelas figuras, completamente inertes, ou melhor, constantes, são a metáfora da indiferença. Um ou outro move-se, um louco gira em círculos como uma peça disforme e quadrática num círculo de indigentes; porém, são constantes; povoam o mundo numa maquinalização inconsciente, porque são omissos: nada relevam, nada fazem. E, então, as palavras de Domenico dissipam-se no ar, no silêncio da indiferença.
Seu discurso é, então, finalizado num apoteótico momento em que, ao som de Ode à Alegria, de Beethoven, Domenico derrama em si um líquido inflamável e, enfim, acende-se em chamas. Porém, até na hora de sua morte, enquanto ele se debate no chão e grita, o público permanece estático, sem qualquer diligência, dispostos em seus postos, como peça de xadrez, ou melhor, de uma engrenagem motora que move uma sociedade à beira do precipício. Parece-me o fator tanto atual que vez ou outra nos assola: a banalização do hediondo, do desastre, da desgraça. Esse momento marca, também, a expressividade da "grande idéia" de que, acreditava ele, precisamos todos ter - aquela idéia que propõe ao poeta Gorchakov. E, é claro, sua tentativa frustrada de salvar o mundo; porque, ao se exprimir em público, rejeitou seu egoísmo - que antes manifestava-se apenas em salvar sua família, escusá-la do mundo, fugir dele -, quando, na verdade, o que ele realmente precisava era mudar esse mundo, ou melhor, salvá-lo.
Por conseguinte, vemos Gorchakov realizar, sob a crença e idéia de Domenico, a façanha de atravessar com a vela de um extremo ao outro do rio. Acredito que essa seja simbolicamente a passagem do homem pela vida, inscrito numa esféra que aglutina inseguranças, superstições, desejos, fracassos e sucessos. Tarkovski faz o que eu nunca esperaria de qualquer diretor. Gorchakov, ao acender a vela, tenta três vezes alcançar o outro extremo com a vela ainda acesa. Vemos esse fato por completo, sem cortes, sem interrupções. O poeta fracassa duas vezes. Tarkovski disse que, quando faz um filme, concentra-se inteiramente nele e só mostra o essencial: o que não mostra é excesso. Por isso, ouso citar aqui o minucioso momento em que se escuta o estalido, como se quebrasse algum objeto de vidro por um pisão - o que acredito ter algum significado atenuado, como podendo ser as passagens que nos parece irrelevante na vida. Enfim, na terceira e última tentativa, finalmente, ele chega ao outro lado, marcando, assim, o fim do homem na Terra: Gorchakov padece ofegante até que cai no chão, escutamos sua respiração pesada durante toda essa última cena; a vela, porém, não se apaga, continua a queimar, como se marcasse o mundo e suas inconstâncias (sustenidas pelo homem); o mundo que não pára.
Tarkovski, como toda sua subjetividade, desperta em nós uma sensação melancólica, poeticamente filmada. Sim, esse filme é uma poesia em imagens - não estou exagerando, nem enlevando-o mais do que merece. Sinto-me seguro a preconizá-lo a qualquer um que possua aguçada sensibilidade artística e emocional. Claro, não é um filme para qualquer 'paladar'. É um filme prolíxo, vagaroso, exatamente como aquele dia melancólico que parece demorar o segundo de cada minuto e o minuto de cada hora. É um passar de tempo aos olhos e às emoções de Gorchakov, acompanhado por nós, que sentimos às mesmas sensações que o poeta. Vivemos com ele a indisposição dos dias nostálgicos.
Por: Renan Alves