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Filmes, diretores, gêneros, experiências, roteiros, cinefotografias, edições, sonoplastias, trilhas, atuações... tudo sobre cinema.

Fazer desse espaço um grande caderno de opiniões.

Os melhores vilões dos últimos tempos

Responda rápido: quais os dois últimos grandes vilões produzidos por Hollywood? Coincidência ou não, são eles os personagens interpretados pelos últimos vencedores do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, já que vilões sempre ficam com a posição de antagonistas aos heróis, que sempre são os protagonistas.

Coringa (Heath Ledger), de "Batman - Cavaleiro das Trevas" (2008), e Anton Chigurh (Javier Barden), de "Onde os Fracos Não Têm Vez" (2007), são personagens movidos pelo desejo de matar, sem fazer trocadilho com o título homônimo da cinesérie estrelada por Charles Bronson. Os filmes confirmam a tese de que é comum vilões invariavelmente serem mais interessantes do que os heróis, pois segundo os psicólogos, despertam o lado sombrio, adormecido ou não, dentro de cada um de nós.


ANTON CHIGURH

Anton Chigurh, interpretado de forma arrebatadora pelo espanhol Barden, é um personagem de meter medo no mais durão dos homens. Basta que ele entre em cena para se saber que algo de ruim vai acontecer. Apesar de matar qualquer um que se intrometa pela sua frente, não se pode dizer que ele seja propriamente um serial killer, já que sua profissão é de matador de aluguel.

Também não dá para se dizer que ele mate por prazer, já que a matança é sempre movida pelos "deveres profissionais", se é que se pode colocar as coisas desta maneira. Porém, se não existe prazer, a obrigação homicida imposta pela profissão se junta à natureza violenta do personagem. Anton age como um verdadeiro predador: frio, calculista, inteligente, forte e impiedoso.

Desprovido de qualquer senso de humor, ele distingui-se neste ponto do "colega" Coringa. Além disto, prova de que ele não dá a mínima para quem mata é o uso de uma moeda, para decidir no cara ou coroa, se a vítima vive ou não, ao melhor estilo Duas Caras, que assim como o Coringa, integra o universo Batman. No filme, no entanto, ele usa o expediente apenas duas vezes, sendo que em uma delas é apenas sugerida, sem que se saiba se ele usou ou não o resultado da moeda com a vítima. Na filosofia "antoniana", não há espaço para remorso ou piedade. Se é preciso matar, alguém vai morrer. Resumo da ópera: o ato de matar, para Anton, é tão fisiológico quanto respirar, beber água ou ir ao banheiro.

CORINGA

E o que dizer do Coringa? Ele não apareceu ontem, como o "colega" Anton, mas acaba de ser reinventado por Ledger. O Coringa de agora não é o caricato feito por George Romero na série de TV (1967-1969) e muito menos o exagerado concebido por Jack Nicholson em "Batman - O Filme" (1989). Sem dúvida, assim como Batman é o mais importante herói dos quadrinhos, ele é o mais relevante vilão. Nenhum outro herói tem um antagonista tão marcante. Os outros "concorrentes" que o digam.

O Superman tem apenas o megalomaníaco Lex Luthor e o nem sempre presente Brainiac; o Homem Aranha tinha o Duende Verde, que morreu, e tenta encontrar para o posto nomes como Dr. Octopuss, Duende Macabro e Venom, que não são unanimidades; os X-Men têm Magneto, que vez por outra, passa de inimigo para aliado; pior ainda é o Hulk, que tem uma instituição como rival-mor, no caso, o Exército americano.

Ao contrário de desenhos animados como "Superamigos" e afins, que colocaram Batman definitivamente no imaginário infanto-juvenil, os quadrinhos dele nunca foram a leitura mais recomendada para crianças e adolescentes em fase de formação de caráter, haja vista o conteúdo repleto de violência, corrupção, morte, imoralidade, desvios de condutas e tudo mais de ruim que uma megalópole como Gotham City pode criar. Assim, o Coringa de Ledger procura seguir a risca o perfil dos quadrinhos: insano, sádico, violento, imprevisível, ousado e, sobretudo, anárquico. Tanto no filme quanto na HQ, vemos que o Coringa mata e comete atrocidades não apenas por interesse, prazer ou qualquer coisa parecida. Faz tais atos para ver o caos e a anarquia se instalarem. Para satisfazer sua mente doentia, o que o palhaço do crime quer é ver o circo pegar fogo, sempre.

Por João Gabriel P.C. Freitas
* O autor é jornalista. O seu e-mail é jg@pocos-net.com.br

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São Paulo Rock City



Hoje é dia 7 de abril de 2009, exatamente as 15h30 e logo mais a noite sobe aos palcos em São Paulo, a banda mais inconfundível do planeta. Para ilustrar o quão mágico é vê-los em ação não existe filme melhor que Detroit Rock City. O filme conta a trajetória de quatro amigos, integrantes de uma banda chamada Mistery, que estão dispostos a fazer de tudo para ver o Kiss tocando em Detroit.

O que faz esse filme ser ótimo é que, deixando os exageros a parte, é algo que muitos fãs fariam pra ver sua banda predileta, trata-se de algo para toda a vida, quem já foi num bom show de rock ainda mais de uma banda que faz parte de sua história sabe do que trata. É algo inexplicável sentir a música vibrando em seu corpo, um sonho sendo realizado. A música que você ouvia no seu vinil, K7, CD e atualmente em formato mp3, agora além de ouvir é possível ver, ver os “caras pintadas” que estão no pôster da parede do seu quarto tocando e cantando a trilha sonora de sua vida para você e para tantos outros.

Esse filme é para os apreciadores do rock que vêem estampada na cara dos quatro garotos, a satisfação e a certeza de que tudo que foi feito até então valeu a pena, pois no show não importa a quantidade de pessoas presentes, naquele momento não existe nada nem ninguém entre eles e Kiss.

O Escafandro e a Borboleta



Imagine-se dentro de uma prisão, onde por mais que você grite ou se debata contra as grades ninguém o ouve. Agora, mesmo que pareça surreal, imagine que essa prisão é o seu próprio corpo – uma fortaleza hermética e impenetrável – e sua mente está presa nela. Presa em termos, pois enquanto o corpo vegeta em nosso mundo material, a mente galga as paisagens mais incríveis e os pontos mais bucólicos da Terra.

Literalmente é isso que acontece com Jean-Dominique Bauby, o diretor chefe de redação da revista Elle, que em dezembro de 1995 tem sua liberdade de fala e de locomoção tolhidas por um A.V.C. ( Acidente Vascular Cerebral ). Essa fatalidade o confina a um estado letárgico chamado de Síndrome Locked-in ( Trancado por dentro ). O filme retrata muito bem o desespero do protagonista frente a tal mazela que o priva do contato social, e as cenas paralelas que mostram um mergulhador em desespero dentro de um pesado escafandro em meio a águas turvas complementam e metaforizam a idéia da síndrome.

Inicialmente, o personagem mantém uma postura de inconformação e pessimismo em relação a seu estado físico e a deterioração de suas funções motoras, já que ele perdera todo o glamour de outrora e só lhe restara encarar o mundo com apenas um olho e sem nenhum movimento. Psicologicamente, o ego de Jean-Do fora brutalmente machucado pela brutal fatalidade.

Porém esse empecilho não foi o bastante para assolar a obstinação de Jean-Do, pois com o auxílio de sua família, de amigos e principalmente com um fantástico método de comunicação desenvolvido pela simpática logopeda do hospital, literalmente, pontes e elos são estabelecidos entre o paciente e o mundo exterior. Alicerçado nessa simples, porém enfadonha técnica, ele parte para a difícil tarefa de escrever um livro que traduza seus sentimentos e pesares.

A utilização da câmera é um espetáculo à parte, pois ao invés de focalizar o paciente apenas exteriormente, a produção tenta nos mostrar a vida do mesmo sob um prisma quase desprezado pela medicina : O modo de ver o problema pelos olhos do enfermo. O espectador é levado a ver e sentir-se como o paciente que acorda do coma e está espantado frente à movimentação em seu quarto. Durante os primeiros minutos, a utilização desse recurso nos causa uma certa agonia, principalmente no momento em que o olho esquerdo de Bauby é suturado, pois há a sensação de que o nosso próprio olho está sofrendo tal procedimento. A câmera é posicionada para vermos o que o paciente vê em seu diminuto campo visual.

Sinceramente não consigo enxergar a possibilidade de outro ator (como Johnny Depp que foi cotado para o papel, mas recusou-o devido o começo das gravações de “Piratas do Caribe – No fim do mundo” ) assumir a interpretação além de Mathieu Amalric, que está impecável ao reconstruir tanto a personalidade criativa quanto a fisionomia estática de Jean Dominique. Sua atuação é grandiosa e repleta de sentimentos, vimos como o ator se entrega à construção do personagem.

Um dos principais motivos para o sucesso da produção chama-se Junusz Kaminski, um experiente fotógrafo polonês que foi capaz de retratar lindamente o mundo interior do protagonista – repleto de questionamentos existenciais referentes aos pequenos erros de sua vida. Com um trabalho baseado em closes e utilizando cores fortes, vivas e brilhantes para representar as locações, o resultado só poderia ser esplendoroso, pois confere uma certa subjetividade à câmera.

Com toda essa gama de profissionais trabalhando e se esmerando ao máximo, “O Escafandro e a Borboleta” arrebatou prêmios em diversos festivais de cinema ao redor do mundo (como Cannes – Melhor diretor; 2 Globos de Ouro – Melhor filme e melhor diretor), além de 4 indicações ao Oscar.

Jean-Do nos dá uma lição de vida com o modo como lida com seu grave quadro clínico, ele é capaz de nos fazer refletir e repensar nossos valores. E depois de assistir toda a sofrida peleja de Bauby, uma frase de Sherlock Holmes me vem a mente : “Os caminhos do destino realmente são difíceis de compreender. Se não houver recompensa depois da vida, então o mundo é apenas uma brincadeira cruel."

Sobre Naked Lunch de David Cronenberg


O corpo perfeito que nos leva rua após rua, não foi feito para a perfeição. Se nossa mente é soterrada por mil pensamentos e sensações que ocorrem todas ao mesmo tempo, como dizer que nosso corpo, o qual comporta nossa mente, foi feito para a perfeição? Sendo, portanto, essa distorção possível, quem sabe ela não seja possível ao nível da realidade, muito embora tantos procurem modificar seu corpo de maneira a incutir nele o que se convencionou chamar de personalidade. Entretanto, é no cinema de David Cronenberg que essa distorção do corpo toma o próprio corpo da película. E é em Naked Lunch (1991), que a mente e o corpo, a tal ponto distorcidas, constroem uma obra cinematográfica única, a qual, em sua estrutura fundamental, traz consigo o próprio corpo como referência fundamental.

Em Naked Lunch, deparamo-nos com Bill Lee, um homem que é exterminador de baratas e escritor que nada escreve. Para exterminar baratas, este homem usa um pó amarelo com o qual as baratas se alimentam para enfim morrer. Certa feita, contudo, Bill Lee percebe que sua esposa está viciada no pó amarelo que usa para exterminar baratas, sendo que logo em seguida é preso por policiais desprovidos de qualquer fardamento sob a acusação de que seu pó amarelo contém na verdade uma droga – e que, enfim, não extermina barata alguma.

Este homem, talvez a personificação de William S. Burroughs que escreveu o romance do qual se originou o filme, foge dos policiais ao se deparar com os conselhos de uma barata gigante que tem tremores de prazer com o pó amarelo utilizado, em princípio, para exterminá-la. Ao chegar em casa, Bill Lee vê sua esposa, Joan, na companhia de dois amigos, sendo que se um deles lê um poema beat com seus óculos de aros pretos, o outro transa com Joan, como se as palavras do próprio poema fossem a força que impusionasse o sexo.

Ao verem que Bill Lee chegou, os três ficam um tanto constrangidos. Mas enquanto isso, o que Bill Lee faz é ir para o quarto e, como fazia a esposa há sabe-se lá qual tempo, injetar nas veias o pó amarelo que em um momento anterior utilizava para exterminar baratas. E é partindo dessa premissa inicial, que em si já carrega a necessidade da morte e da vontade de morrer relacionada ao prazer, que inicia toda saga do protagonista, pois após sua esposa posicionar um copo na cabeça, encenando um jogo que aparentemente há muito era jogado por ambos, Bill Lee, apontando uma arma em sua direção, ao revés de acertar o copo, acerta a cabeça da própria Joan.

E o que acontece a partir de então? Constipado pela culpa e pelo delírio do vício, Bill Lee, exterminador de baratas e escritor que nada escreve, recebe passagens também de uma barata gigante, só que essa elevada ao nível de frequentadora de pubs, para ir até um local chamado Interzone, sendo que neste local descobriria a verdadeira razão de tudo o que lhe está acontecendo. E para o quê está essa razão? Principalmente para o fato de que sua esposa, segundo o relato da barata que tinha tremores de prazer na delegacia da qual Bill Lee fugiu, na verdade não é sua esposa, mas sim uma agente treinada para acompanhar os passos do próprio protagonista por uma organização que desconhecida com sede justamente em Interzone.



A partir daí, Interzone nos é apresentada como um porto do Oriente repleto de escritores e homossexuais, onde as drogas, normalmente provenientes de insetos, povoam todos os corpos que, por conseqüência, são deformados pela droga. E nesse cenário de escritores e homossexuais, carregando de um lado para o outro sua máquina de escrever que ora se transmuta em apetrechos para o vício, ora se transmuta em insetos que conversam e aconselham Bill Lee, é que o protagonista perceberá que não existe redenção tanto para o vício quanto para a culpa, sendo que o primeiro assim como o segundo jamais deixarão uma pessoa sair sem qualquer sequela nas mãos.

Talvez, levando a construção fílmica de Cronenberg e mesmo o romance de Burroughs ao extremo, possamos enxergar nesse porto do Oriente repleto de homossexuais e escritores, a própria culpa travestida de Bill Lee, o qual, vagando entre o sonho e a realidade, não encontra lugar melhor para descobrir quem é a não ser um porto: local no qual todos desembarcam mas no final ninguém permanece. Não é à toa que em vários momentos Bill Lee aparece dormindo na areia de uma praia que não se vê, próximo a um barco destruído, como se a fuga, apesar de tentada, fosse impossível.

Por esses motivos e muitos outros, que Naked Lunch de David Cronenberg segue os traços do realizador de Spider, Crash e The Brood, ao reforçar a tese de que o corpo não foi feito para a perfeição. Se Bill Lee é deformado pela culpa, pelo vício, pela homossexualidade que renega e mesmo pela escrita que julga não ser sua, já que é um escritor que nada escreve, tudo isso não tem apenas conseqüências internas para o personagem, já que essas conseqüências vazam para o plano externo de uma maneira que beira o caótico, mas traz consigo uma estrutura perfeitamente alinhava com as intenções de Cronenberg/Burroughs ao nos contar essa história.

Não é necessário dizer, pelo visto até aqui, que nem todos irão se sentir satisfeitos com Naked Lunch. Talvez o motivo disso até esteja para o fato de que a tradução do título do romance em português, está para “O Almoço Nú”, muito embora no Brasil tenham lhe batizado com o terrível “Mistérios e Paixões” enquanto filme. Esse almoço nú, refeição que não satisfaz porque traz no próprio corpo o alimento e aquele que se alimenta, seja pelo vício ou pela culpa, a qual, com o correr da trama, também se torna um vício, por vezes nos dobra as curvas do estômago e nos faz pensar que Cronenberg e sua obsessão por insetos quer dizer muito mais do que diz em cada minuto da película – e quer, enfim, apenas nos enojar com um vômito que se prende na garganta.

Mas se o corpo perfeito que nos leva rua após rua, não foi feito para a perfeição, sendo que toda a distorção, a partir desse ponto fundamental, torna qualquer realidade possível, distante de uma dicotomia que traga mente e corpo como entidades separadas e não contidas em um mesmo emaranhado de incongruências psicológicas e perfeições biológicas, não existe outra maneira de se contar uma história sobre a culpa e o vício sem recair nas conseqüências externas que essa mesma história irá trazer consigo. E se essas conseqüências externas ocorrem em sua maior parte em um porto do Oriente, talvez aí esteja a chave para a necessidade da morte e da vontade de morrer relacionada ao prazer, pois apesar de todos atracarem um dia nesse porto, a partida é inevitável assim como é inevitável o nosso fim.

Por isso é que Naked Lunch é uma experiência estética e fílmica única, trazendo em si um visual bizarro que somente ilustra a bizarrice com a qual nos deparamos todos os dias rua após rua. E apesar do asco que talvez este filme provoque em alguns espectadores, este asco, como o romance A Náusea de Jean-Paul Sartre, é tão necessário quanto é necessário saber que o vício e a culpa estão diretamente relacionados ao prazer e só por isso nos constituem fundamentalmente. Mas se Sartre nos diz que a náusea está para esse deslocamento do ser humano frente ao mundo, Cronenberg/Burroughs estão além: aceitam esse deslocamento e é a partir dele que falam, sendo que desta aceitação provém uma obra que deveria receber muito mais aplausos do que recebeu até o momento. Afinal, não são todos que (de)mostram sua personalidade. Quanto mais realizadores cinematográficos.



Do Sonho à Realidade

Réquiem por um Sonho é um daqueles filmes que te deixa pasmo quando você termina de assistir, te causa vertigens e fascinação, é como uma viagem surreal pelo Reino do Sonho e de repente te suga para mais cruel realidade. Marcante desde o título até a última cena, uma cerimônia fúnebre à morte de um sonho.
Diferente dos outros filmes que retratam esse tema, em Réquiem, a atmosfera vai se tornando mais densa ambientada por uma trilha sonora fantástica produzida por Clint Mansell. Considero as trilhas sonoras partes fundamentais dos filmes, elas criam todo um clima entre o espectador e a história, e Mansell soube fazer isso muito bem.
Esteticamente a película também é surpreendente. Há cenas que são retratadas de maneira inovadora em que o personagem vai do deleite ao delírio, da ingênua felicidade ao desespero; o diretor Darren Aronofsky não mostra o fato em si, e sim, a percepção que os personagens têm do fato, os sentimentos e sensações deles em relação ao que acontece, fazendo com que o espectador entre realmente no drama do filme.
O filme começa narrando a trajetória de quatro pessoas:
Harry Goldfarb (Jared Leto) é um jovem viciado em heroína, que namora a bela e rebelde Marion (Jennifer Connelly), juntos se drogam, sonham montar uma loja e ser felizes para sempre.


Tyrone (Marlon Wayans) é o seu melhor amigo e assim como eles também usuário de drogas. O grande sonho de Tyrone é fazer o que prometeu quando pequeno à sua mãe : “Ser alguém na vida…”.
Sara Goldfarb (Ellen Burstyn) é mãe de Harry, uma viúva que esconde sua solidão no seu vicio pela tevê, assistindo programas populares. A excelente atuação de Ellen Burstyn emociona, provavelmente a historia mais forte do filme. Um dia Sara recebe uma ligação avisando que ela foi sorteada para aparecer no seu programa favorito, assim ela cria uma obsessão que acaba levando-a a decadência.


Num diálogo com Harry, Goldfarb desabafa:
“Eu sou alguém agora Harry, todos gostam de mim, breve, milhões de pessoas irão me ver e gostar de mim. Contarei a eles sobre você, seu pai [...]. É uma boa razão para eu me levantar de manhã, é uma boa razão para perder peso e caber no vestido vermelho, é uma razão para sorrir e me faz acreditar no futuro. O que eu tenho Harry? Para que devo fazer a cama, lavar os pratos? Eu faço, mas para quê? Estou sozinha. Seu pai foi embora, você foi embora, não tenho ninguém de quem cuidar. [...] Gosto de pensar no vestido vermelho e na televisão… agora quando eu vejo o sol, eu sorrio”.
Os destinos de todos os personagens parecem fadados às desgraças da vida real e você sente que algo ruim irá acontecer a qualquer momento. Eles se enganam. Chega a ser comovente o casal Harry e Marion prometendo um ao outro a 600km de distância que tudo ficará bem, mesmo cada um sabendo que não vai ficar. Mas quem já não tentou se enganar na vida?
Absorvidos pelo abraço frio do Inverno os personagens degradam, os finais acontecem ao mesmo tempo, a câmera frenética e as seqüências das cenas vão ficando mais rápidas como se a realidade os tivesse puxado de uma grande altura e eles caem. A música final é como uma estranha canção de ninar, cada um se encolhe como um bebê, tentando se proteger, querendo um pouco de proteção ou apenas tentando ainda guardar algo bom.

Por: Nádia Camuça

Paulo Martins, um jornalista a deriva em “Terra em Transe”


Em “Terra em Transe”, Glauber Rocha levou até às ultimas conseqüências os ideais das teorias que expressou, um cinema que analisasse e interpretasse a historia, lançando um olhar único sobre um momento de impasse da conjuntura política brasileira. Metaforicamente, o filme mostra o caráter de um povo e desenvolve os temas do populismo e do patriarcalismo, em uma resposta ao Golpe, mostrando a falência dos ideais das esquerdas. História de um país fictício, “Eldorado”, que passa por momentos de transição política, “Terra em Transe” transcorre toda a partir do momento em que o jornalista Paulo Martins é morto, seus pensamentos e devaneios levam o espectador a entrar nos momentos decisivos dos rumos políticos daquele país, onde cai um líder populista e outro líder com inspirações fascistas chega ao poder: Dom Felipe Vieira e Porfírio Diaz.

O personagem Paulo Martins jornalista e assessor político transita entre o poder de manipulação política e a subversão poética, na poesia, o personagem contempla a sua liberdade enquanto ser criativo e sua manipulação política é exercida à custa da ignorância do povo. Porém a incompatibilidade entre o sonho poético e a realidade política faz com que o herói se encontre sempre ofegante a procura de um líder para fazer valer os seus ideais.

O jornalista ávido por verdade se encontra totalmente dilacerado e sai na busca por uma salvação para o mar de desesperança em que se afundou. O personagem Paulo Martins é um poeta romântico, acredita que um mundo melhor é possível, porém o personagem tenta romper com seu inconsciente lírico ao pressentir que o seu romantismo, não o levou a lugar algum. Seu lado poeta tem relevância em sua personalidade, sua poesia evoca a “morte como fé e não como temor”. Porém na tentativa de algo em que se agarrar, o personagem se perde em agonia, o jornalista-poeta não sabe o que fazer, um prenúncio da castração do intelectual brasileiro nos anos 70, após o AI-5.

Os rumos políticos de “Eldorado” fazem com que o herói se entregue à angústia e ao desespero, colocando em questão a série de balanços críticos das ilusões do intelectual que anseia por um mundo melhor, mais que tem seu ideal sufocado. O mundo circundante o perturba, uma realidade onde o jogo político faz com que ele se veja sucumbido pelos dilemas de seu idealismo.

O jornalista transita no meio dos acontecimentos como se a tudo assistisse e participasse. O filme é metafórico, usa e abusa do lirismo poético para mostrar o jogo de enganações e relações promíscuas e perigosas na política. Essa inconstância do personagem não foi compreendida por alguns setores da esquerda e da direita, o que fez com que a critica da época se dividisse. Intelectuais da esquerda marxista, sob a perspectiva do filósofo húngaro Georg Lukács e do cineasta soviético Serguei Einsestein, analisaram o personagem sob o ângulo do irracionalismo burguês.

Seduzido pelos políticos e donos de jornais de “Eldorado”, Paulo Martins colabora com o líder fascista Porfírio Diaz, que lhe oferece poder, dinheiro e mulheres. Mas ele recusa tudo em nome de suas idéias políticas. Dom Felipe Vieira o leva a conhecer a verdadeira máscara do populismo, onde ele descobre a podridão da esquerda, que abusa do povo para chegar ao poder, usando de uma ideologia para conquistar a massa. Os comícios majestosos organizados por ele, fazem com que seu candidato ganhe as eleições. Porém os patrocinadores da campanha impedem que uma atitude seja tomada quando um líder de sem terra é assassinado. Cada vez mais o personagem vai hesitando entre o misticismo reacionário de Diaz e o chove-não-molha de Vieira.


Dilacerado, Paulo Martins grita a despolitização da massa ignorante, indiferente, bestificada, alheia. Ele vê a massa como um fenômeno espontâneo, mas, entretanto a massa é complexa. No momento que o representante do povo vai falar, o jornalista tapa a boca do líder sindical. Porém, sua namorada Sara, retruca que a culpa não é do povo.

Enquanto em “Deus e o Diabo na Terra do Sol” a expressão da fome é a seca do sertão, em “Terra em Transe” a fome é analisada sob o prisma urbano. A fome de Paulo Martins é a fome por liberdade e ideal.

Um pensamento que perturba o jornalista é a questão de como o intelectual poderá superar suas alienações e contradições, buscando atingir uma lucidez revolucionária no mundo subdesenvolvido. Paulo Martins empreende uma luta quixotesca, quando percebe que a sonhada revolução, engendrada por Felipe Vieira não estourou no momento desejado.

Veículos de comunicação da época, como os jornais “Tribuna da Imprensa” de Carlos Lacerda e “A Última Hora” de Samuel Wainer, revelavam a influência da comunicação de massa na história do Brasil. Um jornalismo que caminhava lado a lado dos acontecimentos de seu tempo, tendo o poder de influenciar nos rumos dos fatos. Como no caso da conturbada figura do jornalista Carlos Lacerda, eleito governador do Estado da Guanabara, responsável por liderar e ser pivô de movimentos conservadores da direita, que desencadearam um processo político que contribuiria para que os militares dessem um golpe de Estado no país. O filme problematiza não só o jornalista intelectual brasileiro dos anos 60, que pode ser considerado emblemático até hoje, como também a relação com os meios de comunicação, antecipando o que os estudos midiológicos vieram a mostrar: que o poder político é determinado pelos interesses da mídia e sua manipulação da opinião pública, inclusive o exercício do voto.

Paulo Martins, um jornalista à deriva oscila entre a esquerda e a direita, tendo um comportamento existencial e político hesitante: Diaz-Vieira e Sara-Sílvia. Em dado momento, Sara diz a Paulo que “a política e a poesia são demais para um só homem”. No final do filme, o jornalista-poeta morre num lamento guevarista com a arma na mão, como um mártir.

O filme Terra em Transe permanece atual porque os jornalistas (quando não estão conformisticamente integrados ao sistema) continuam à deriva, assim como o país até hoje não conseguiu erradicar a fome, a miséria, o atraso, o analfabetismo e o subdesenvolvimento.

Por: Daiverson Silveira Machado
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Nostalgia, um filme de Andrei Tarkovski

SINOPSE

Nostalgia é o fim da estrada mal percorrida de um poeta russo, Andrei Gorchakov. É um filme de uma sensibilidade poética, delicada e hermética, do cenário ao próprio protagonista. Este é uma entropia nostálgica que implode dentro de si lembranças escurecidas de sua terra natal, coloridas pelo preto e branco da cena. Porém, apesar do que sugere saudosismo, ele parece tentar desfazer-se de alguma coisa de seu passado.

Em determinado momento do filme, percebido a insalubridade física e psicológica do protagonista, já tão perdido e frustrado por não ter encontrado um caminho, ele confunde-se na loucura de um outro personagem, Domenico, um velho lunático e inconformado com a sociedade. Daí, é poucos passos ao completo esmorecimento da razão.

O DIRETOR
A arte de Tarkovski é complexa, hermética, considerada elitista por seu alto grau de subjetividade. No entanto, o próprio diretor explica-se em termos emocionais o que é a arte. Para ele, a obra de arte não arrebata o espectador porque fora feito exclusivamente para ele, mas porque a idéia que procede a obra, que infla-a e constitui seu todo, provém do próprio artista. Este, então, não se pode deixar corromper pela massa em geral, que espera a mesma história com o mesmo final, ou seja, aquela película-mercadoria que decorre das leis estabelecidas pela indústria. Tarkovski acredita que precisamos raciocinar em suas obras e, ou perceber, não por meio de argumentos concretos, jornalísticos, mas pelo próprio impacto emocional que não se explica, que simplesmente arremata o espectador e o persuade à sensação. Essa é uma das peculiaridades da expressão artística, o poder de conciliar o real e o imaginário de modo que, não por meios científicos seja explicada, mas que simplesmente permite ao espectador apreender a realidade de uma maneira emocional, não apenas racional.

Nas obras de Tarkovski, não há uma resposta para tudo, nem para as próprias questões que ele propõe. Talvez, seja por isso que nos confunde tanto sua arte. No entanto, Tarkovski pinta a realidade de uma maneira complexa em que ela mesma se embaraça. Subjetivamente, ele patenteia o imaginário e o expõe da mesma maneira hermética que faz o nosso cotidiano - tanto entendido como um enigma indecifrável. Porém, somos impelidos às suas percepções, entendemos sua arte como sensações, não como meras palavras explicativas, apesar das hipóteses que sugeri nesse texto. Tarkovski decompõe o ser humano numa introspecção seletiva de símbolos. Nada lhe escapa, porém só o essencial é exposto. É como abrir um relógio para ver como funciona - como o próprio diretor disse.

Andrei Gorchakov, como alter-ego do diretor, é o silício quase que impermeável, denso, duro, difícil de se penetrar e entender, apesar dos seus gestos e atos no decorrer do filme. No entanto, ele parece emanar suas sensações que se entranham por onde passa. É uma melancolia intensa, uma frustração entediante, angustias que o reprimem em seu passado e no seu introverso.

A beleza do cenário da história é quase que ofuscada pelas horas do dia em que foi filmado. Enevoado, escuro, como a alva da manhã, as ruínas somem-se na névoa e na própria melancolia do poeta. Este percorre, numa prolixidade extrema, os lugares, no entanto, à toa à eles. Introverso, suas angustias resultam no tédio profundo em que se encolhe diante dos lugares que passa. É uma pedra resvalando nos declives clichês da vida, permeado de insatisfações, calcado num saudosismo idealizado. Gorchakov caminha no escuro à procura de alguma coisa que não sabe o que é; mas, tudo o enfastia. Nada parece comovê-lo; suas crenças estão debilitadas; sua vontade é indolente; as dúvidas e suas respostas permeiam os interstícios da própria indolência à disposição do ânimo. E é nesse dipolo introverso que se dissocia o indivíduo da sociedade, a qual esta é dissolvida em atestados identitários que aquele discorre e cognomina ao critério da sua percepção. Então, Gorchakov, como indivíduo, revolve-se, insciente, no espírito, à procura da existência em tentativas frustradas pelo externo e à passos cegos no escuro interior. Pois essa oscilação entre os meios o confunde de maneira que não consegue distinguir um nem outro. É quando sua razão esmorece, devido a esses fatores e, talvez, à insalubridade física que carrega, e Gorchakov, então, adota a perspectiva racional de Domenico.

O FILME


"Estou cansado de ver suas belezas. Enjoam-me. Não desejo mais nada que seja só para mim."


O filme é introduzido por uma possível lembrança do poeta, numa cena em preto e branco, onde os figurantes parecem estar dispostos aleatoriamente no cenário bucólico. Após isso, o filme começa. O cenário é escuro e enevoado, onde a paisagem parece sumir-se diante dos olhos. Vê-se nessa cena a expressão indisposição artística do próprio poeta, pois este se nega a assistir às belezas que sua intérprete oferece. Ele é compelido a uma força centrífuga que dispersa, que repele o social. No entanto, o que vem a seguir é o que ganha maior destaque.


"Sou um homem simples, mas, para mim, a mulher serve para ter filhos, criá-los, com paciência e sacrifício."


A intérprete, Eugênia, é uma metáfora da mulher livre; ao percorrer por entre os pilares do templo iluminado por velas, outras mulheres, ajoelhadas, parecem ceder à religião; são as figuras antepassadas ao feminino de hoje, submissas ao ascetismo religioso, que constrasta justamente com aquela mulher em pé, que caminha despreocupada: a figura moderna do feminino. Apesar da cena ser povoada por devotos numa iconolatria acentuada, o ponto que principalmente se destaca não é a religiosidade, nem a superstição; é, porém, a própria questão da mulher. Ao recusar ajoelhar-se diante da imagem da santa, como todas as outras mulheres, Eugênia é tomada por um sacristão como uma descrente. Ela, ao observar o ritual ao redor, percebe que apenas mulheres parecem submeter-se ao rigor da religiosidade; pergunta, então, o que o padre acha daquilo. Ao que se responde, com simples humildade, que, para ele, "a mulher serve para ter filhos, criá-los com paciência e sacrifício", revelando, assim, a figura do macho e sua visão estereotipada à cerca da mulher. A cena é finalizada justamente por essa rigorosa devoção religiosa das mulheres, na qual uma crente reza com fervor, provando assim a submissão feminina.


"Todos parecem querer a liberdade; mas, se lhes derem, digo que não sabem o que fazer com ela... Não a conhecem."


Outra passagem importante é quando Eugência, num acesso de raiva pela indiferênça de Gorchakov aos seus sentimentos, faz-se uma intercalação numa inspeção ao poder feminino de atração, de aptidão romanesca, cujo poeta é a exceção à regra, ou seja, ele é diferente dos outros homens que a desejam, que sabem o que querem dela. Ela acusa o ar que se respira na Itália, rememora outros casos que tivera, mas que, no entanto, não deu certo. O poeta, como disse, é diferente dos outros, não quer o corpo da mulher, não é atraído pelas mesmas volúpias daquela mulher; ele preocupa-se com coisas obstantes, de interesse intelectual. Sua sensualidade é, portanto, rejeitada ao ato não-heróico do poeta, seja pela indiferença, ou pela própria fidelidade à esposa.
Aqui, aparece a mulher livre ainda imatura, à procura da estabilidade emocional, do homem ideal; Eugênia mostra-se sufocada pelas ilusões amorosas e ao mesmo tempo pelo desejo platônico que vira e mexe interfere em seu estado. Ao que acusa e se desculpa, move-se pelo cenário, como se conscientizasse da humilhação que se submetera, procurando saída sem assumir seu equívoco, uma vez que o poeta nada tinha de errado pondo-se na posição em que se deixou ficar. A mulher livre, ainda como ser inconstante, é, então, nivelada ao patamar idiossincrático do jeito feminino de ser, às expectativas ainda românticas. Ao passo que sua liberdade não fora desmistificada, assim como a de qualquer homem, como ela própria ressalta na indagação de que ainda que achássemos a liberdade, o que fazer com ela? Não saberíamos.

Seu vestido realça-lhe a beleza feminina, num sensualismo ingênuo do qual perde o controle ao lado de Gorchakov. Ela ainda tem medo, tanto do irreal, dos pesadelos, quanto da própria vida, do que ela pode-lhe propiciar, dos destinos e suas inflexões, numa completa inconstância.


"Jogue isso fora."


O filme, como já disse, é povoado por lembranças do poeta. Há nele uma subjetividade empática, na qual Tarkovski deposita algumas de suas próprias sensações e experiências. Um fato interessante pode ser até visto no documentário Tempo de Viagem, feito com Tonino Guerra, no qual este diz não acreditar na tradução de poesias, entre outras coisas. Em uma cena de Nostalgia, o poeta reproduz essa opinião ao descobrir um livro de poesias traduzidas que sua intérprete ler. É interessante como, num plano poético e metafórico, as minuciosidades decorrem num princípio literal, em contraste ao filme subjetivo e metafórico.

Entretanto, incessantemente, a sensação de melancolia e frustração nos assola, como numa exalação de ares pelo protagonista. Não se sabe se o poeta contamina o cenário com seus sentimentos, ou se este simplesmente realça a dor daquele. Em cenas incisas, porém prolíxas, percebemos a depressão introvertida emanada pelo poeta, que move-se pelo cenário naturalmente. Uma, em particular, me chamou muito a atenção: Gorchakov entra no quarto do hotel em que está hospedado, desliga as lâmpadas, caminha até a janela, abre-a e ver a chuva cair; senta-se na cama e continua a observar; lentamente, ele parece adormecer; ao som das gotas de água caindo no chão e no teto, ele, finalmente, deita-se, com os pés para fora da cama; um cachorro, repentinamente, sai do banheiro, aproxima-se e se deita no chão. Esse cachorro aparece diversas vezes na memória do poeta e, assemelha-se, se não é o mesmo, ao cachorro do lunático Domenico. Enfim, a cena é escura e lenta (tanto que só parece terminar quando o poeta finalmente dorme e sonha). É uma visão profundamente circunspectiva: não adentramos à mente do poeta, mas somos compelidos a sentir ou, ao menos, a perceber aquela mesma sensação de melancolia e frustração.

É importante ressaltar que a falta de expectativas é bastante reatora. Nada, nenhum objeto ou paisagem, no filme, é preconizado pelo poeta. A imagem da santa, no começo, é rejeitada por ele, que nem se interessa a vê-la. Diz estar "cansado de suas belezas", referindo-se às figuras monumentais das quais mostra a intérprete. Ele incorpora uma indisposição lúgubre, introvertido, absorto em si mesmo. Até que conhece o louco Domenico, por quem se interessa e procura conversar. Este é um lunático que se trancou com a família durante 7 anos dentro de sua casa; previa o fim dos tempos e resguardava-se no escuro das suas salas, procurando salvar-se. É um fato controverso, incompreendido, que deturpa-lhe a identidade diante os outros. Gorchakov tenta compreendê-lo, numa tentativa de encontrar alguma verdade nele, algum caminho para si. Acredita que os loucos estão mais perto da verdade. Aqui, sua razão começa a esmorecer-se, a confundir-se nas crenças do outro. Numa conversa entre os dois, sem que nada o poeta entendesse, Domenico revela a necessidade de grandes idéias para o mundo, fato que se consumaria num dos momentos finais. É o caminho oferecido pelo louco ao poeta, que aceita naturalmente.


"... e quando a longa noite cai, duas asas surgem atrás de mim. Na festa, a vela me consome. De madrugada, recolham minha cera derretida e nela leiam quem chora, e quem anda soberbo, como dando a última porção de alegria. Morrer levitando e, por sorte, acender-se postumamente, como uma palavra."


Num dado momento do filme, Gorchakov, num sonho, vê no reflexo do espelho o velho Domenico como sua própria imagem. Está aí a consumação do seu esmorecimento racional; o encontro de si mesmo na mente do outro, nas suas crenças e idéias. É uma cena interessante, intumescida de indagações sobre o que aconteceu ao velho, por que aconteceu, como se realmente fosse ele. Essa cena é prescedida por outra igualmente interessante. Ao percorrer umas ruínas, Gorchakov encontra-se com uma garotinha, a que pergunta se esta está contente com a vida. O que antescede a questão são os contrapontos subjetivos, caracterizados numa estória que conta o poeta à garotinha. Há reflexões sobre as surpresas da vida. No entanto, não compreendendo aquilo, ela responde positivamente a indagação.

Gorchakov sorri, acende um cigarro - um ato que a todo momento do filme se repete, como se cada fumo fosse, para ele, o último e, simplesmente, não importava. De fundo, alguém profere versos de alguma poesia, que desconfio ser de Arseni Tarkovski, pai do diretor. A poesia é como uma revelação do sofrimento, uma tentativa de exprimir suas angustias a si mesmo. Exatamente como uma poesia, inferimos a expressividade dessas angustias nostálgicas, não como linguagem racional ou jornalística, mas, sim, como um impacto emocional que nos revolve. Novamente, volto a destacar o alto teor subjetivista desse filme poético.

Após encontrar-se no reflexo do espelho com o velho Domenico, o poeta percorre, ao esmo, uma antiga construção em ruínas do que parece um castelo. Ouvimos uma conversa, entre Eugênia e Domenico, metaforizados nessa cena como supostamente uma santa e Deus, respectivamente. Há uma questão teológica, em que, ao que a santa pede a Deus por atenção ou zelo à Gorchakov, o Todo Poderoso responde que sempre esteve ao seu lado, mas que o poeta apenas não se recordava de sua presença; Ele não se pode permitir à proeza de aparecer a ele ou falar-lhe diretamente, mas sempre fará sentir Sua presença. Gorchakov, porém, não a percebe.

"Todos os olhos do mundo vêem o precipício em que estamos caindo!"

Nos momentos finais, vemos uma verdadeira prospecção sobre a tão afamada loucura. O velho lunático, Domenico, discorre, numa poeticidade hermética, sua filosofia epistemológica e existencialista. Seu discurso decorre numa abrangência universal, com elementos que remetem à sociedade em geral e sua situação niilista que, inexoravelmente como parte do sistema, envolve seus componentes. Domenico mostra-se inconformado com essa sociedade e propõe a sobreposição do sonho e sua fomentação. Ele revela, invariavelmente, sua crença na esperança cega, no desejo de algo que poderá, talvez, nunca se realizar, numa ilusão em que todos deveriam se apegar. Ele nos fala do valor de acreditar nos sonhos. É uma visão concreta, porém imaginária. Ele decompõe a filosofia do antirracional. É poético, incompatível ao sistema vigente tão racional que rege nossa sociedade.

Domenico, porém, discursa para um público apático. Percebemos isso na disposição dos seus figurantes, de modo aleatório; eles encontram-se estagnados, imóveis, assistindo às verdades que saem da boca do velho lunático. Aquelas figuras, completamente inertes, ou melhor, constantes, são a metáfora da indiferença. Um ou outro move-se, um louco gira em círculos como uma peça disforme e quadrática num círculo de indigentes; porém, são constantes; povoam o mundo numa maquinalização inconsciente, porque são omissos: nada relevam, nada fazem. E, então, as palavras de Domenico dissipam-se no ar, no silêncio da indiferença.

Seu discurso é, então, finalizado num apoteótico momento em que, ao som de Ode à Alegria, de Beethoven, Domenico derrama em si um líquido inflamável e, enfim, acende-se em chamas. Porém, até na hora de sua morte, enquanto ele se debate no chão e grita, o público permanece estático, sem qualquer diligência, dispostos em seus postos, como peça de xadrez, ou melhor, de uma engrenagem motora que move uma sociedade à beira do precipício. Parece-me o fator tanto atual que vez ou outra nos assola: a banalização do hediondo, do desastre, da desgraça. Esse momento marca, também, a expressividade da "grande idéia" de que, acreditava ele, precisamos todos ter - aquela idéia que propõe ao poeta Gorchakov. E, é claro, sua tentativa frustrada de salvar o mundo; porque, ao se exprimir em público, rejeitou seu egoísmo - que antes manifestava-se apenas em salvar sua família, escusá-la do mundo, fugir dele -, quando, na verdade, o que ele realmente precisava era mudar esse mundo, ou melhor, salvá-lo.

Por conseguinte, vemos Gorchakov realizar, sob a crença e idéia de Domenico, a façanha de atravessar com a vela de um extremo ao outro do rio. Acredito que essa seja simbolicamente a passagem do homem pela vida, inscrito numa esféra que aglutina inseguranças, superstições, desejos, fracassos e sucessos. Tarkovski faz o que eu nunca esperaria de qualquer diretor. Gorchakov, ao acender a vela, tenta três vezes alcançar o outro extremo com a vela ainda acesa. Vemos esse fato por completo, sem cortes, sem interrupções. O poeta fracassa duas vezes. Tarkovski disse que, quando faz um filme, concentra-se inteiramente nele e só mostra o essencial: o que não mostra é excesso. Por isso, ouso citar aqui o minucioso momento em que se escuta o estalido, como se quebrasse algum objeto de vidro por um pisão - o que acredito ter algum significado atenuado, como podendo ser as passagens que nos parece irrelevante na vida. Enfim, na terceira e última tentativa, finalmente, ele chega ao outro lado, marcando, assim, o fim do homem na Terra: Gorchakov padece ofegante até que cai no chão, escutamos sua respiração pesada durante toda essa última cena; a vela, porém, não se apaga, continua a queimar, como se marcasse o mundo e suas inconstâncias (sustenidas pelo homem); o mundo que não pára.

Tarkovski, como toda sua subjetividade, desperta em nós uma sensação melancólica, poeticamente filmada. Sim, esse filme é uma poesia em imagens - não estou exagerando, nem enlevando-o mais do que merece. Sinto-me seguro a preconizá-lo a qualquer um que possua aguçada sensibilidade artística e emocional. Claro, não é um filme para qualquer 'paladar'. É um filme prolíxo, vagaroso, exatamente como aquele dia melancólico que parece demorar o segundo de cada minuto e o minuto de cada hora. É um passar de tempo aos olhos e às emoções de Gorchakov, acompanhado por nós, que sentimos às mesmas sensações que o poeta. Vivemos com ele a indisposição dos dias nostálgicos.


Por: Renan Alves
 
TNB